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Postado há 11th April 2020 |
Natasha olhou para aquele templo, pintado de branco, e sentiu-se como uma criança deslumbrada. Antes da porta de entrada para o salão, do lado direito, havia uma estátua de Zé Pelintra em tamanho natural, e do lado esquerdo uma estátua de Maria Mulambo, a pombagira que orientava as atividades da tenda. As estátuas das duas entidades foram saudadas por Ricardo e dona Helena.
Ricardo, percebendo que Natasha não sabia o que fazer, a ensinou:
− Faça assim, Natasha. Curve-se um pouco diante da imagem, bata três palmas e diga: “Laroyê, Exu! Exu é mojubá!”. Eu te saúdo, seu Zé Pelintra! Agora venha aqui, faça o mesmo e diga: “Laroyê, Exu! Exu é mojubá!”. Eu te saúdo, Pombagira Maria Mulambo.
Assim que ela pronunciou o nome de Maria Mulambo, relatou:
− Jesus! O que é isso?
− Sentiu algo, Natasha?
− Estou zonza e completamente arrepiada. Nunca me aconteceu algo assim!
Amparada por Ricardo e dona Helena, eles foram entrando para tomar lugar na assistência, local onde ficavam os visitantes da noite. O sacerdote e chefe daquele terreiro, pai Jeremias, abriu os trabalhos saudando os exus e pedindo deles a proteção. Puxou o ponto e a saudação a exu. Os atabaques rufaram, sendo acompanhados por todos os presentes que batiam palmas e cantavam:
É mojubá, todos exus, é mojubá,
É mojubá, todos exus, é mojubá.
Percebemos a chegada da entidade Zé Pelintra, que se deslocava no ar com incrível velocidade, fazendo com ele várias órbitas em torno da casa, com uma destreza incomparável. Ele volitava com extrema habilidade.
Pai Jeremias, sentindo sua presença, mais uma vez saudou os exus, pediu que os ogans comandassem a curimba e, então, incorporou.
O mesmo ocorreu com os demais quarenta médiuns da corrente, cada qual incorporando suas entidades de costume.
Formaram-se duas filas de médiuns, que ficaram um ao lado do outro, deixando ao meio um corredor para o trânsito dos consulentes. Zé Pelintra falou por meio do médium:
− Laroyê exu, boa noite, humanos! Eu sou Zé Pelintra e tô a trabaio. Que todas as correntes que servem nas sombras da vida e da morte baixem nesse terreiro. E com proteção de Zambi, vamos começar a curimba.
Os ogans começaram a tocar novos pontos de exu, de forma suave, apenas fazendo um fundo sonoro para o trabalho. As pessoas presentes foram orientadas pelos trabalhadores da casa a escolherem, pouco a pouco, os médiuns para conversarem com as entidades.
Somente Zé Pelintra, por meio do pai Jeremias, tinha trânsito livre no terreiro, escolhendo ele próprio com quem queria conversar.
Deu várias voltas em torno das fileiras de médiuns e pediu para acender um charuto. De repente, olhou fixamente para um senhor na assistência, que aparentava ter sessenta anos, e disse:
− Vem cá, homi – e o senhor foi trazido até mais perto do médium incorporado. Boa noite!
− Boa noite, seu Zé!
− Que ocê tá fazendo aqui no canzuá?
− Vim pedir ajuda e proteção. As coisas estão difíceis. Nada está dando certo. − Mesmo, homi? Como ocê qué que dá certo?
− Tá dando muita zebra nos negócios. A patroa tá enjoada. Sabe como é, né? − Zebra é prima da mula, ha, ha, ha, ha, ha – deu uma risada em volume máximo.
Quem acha que a risada de exu é apenas costume, não imagina o poder mágico que ela tem. Após aquela gargalhada estrondosa, aquele homem ficou todo envolvido em uma força energética de coloração branca.
Vários anéis se formaram em torno dele, lembrando os de Saturno. Eles subiam até a cabeça e desciam até os pés, como se tivessem uma mola que os jogasse do alto para baixo.
− Sentiu, homi?
− Nossa, estou todo arrepiado. Deve ter algo muito ruim mesmo, que pegou em mim.
− Tem, tem sim. É seus coice que ocê dá nos outros que tá amarrando a sua vida. Ocê fala que tá dando zebra e ocê é uma mula.
− Como assim, seu Zé?
− Como assim? Tem que ter educação, homi. Ocê é motorista de táxi ou coveiro?
− Motorista de táxi.
− É, mas parece coveiro, com aquela cara de morte que ocê trata seus passageiros. O povo te pede uma coisa, ocê esquece e trata com mau humor. Mau humor é doença, é macumba feia que ocê mesmo faz. Seu carro tá fedendo a mau humor. Ocê gosta de ser maltratado?
− Ninguém gosta, não é, seu Zé?
− Então, para de maltratar os outros. Lembra da má resposta que ocê deu para a mulher outro dia?
− Que mulher?
− Vou refrescar sua mente. Ocê tá duvidando de mim, né? Então escuta: a mulher perguntou se ocê sabia quem fazia um trajeto para outra cidade, perto da capital. E o que ocê respondeu para ela, lembra? Ocê disse: “A senhora tá me achando com cara de balcão de informação? Eu sou motorista de táxi”. É uma mula, isso que ocê é! E vem aqui falar que as coisas estão difíceis. Pois ocê não sabe com quem mexeu. Aquela mulher que ocê deu má resposta é uma feiticeira, meu chapa. Ocê dançou nessa.
− Nossa, como o senhor sabe de tudo isso? Ela fez algo para mim?
− Fez sim e agora ocê tá perdido.
− O seu Zé vai fazer alguma coisa para me livrar disso?
− Vou pensar. Vamo fazer um acordo?
− Vamos. Quanto o senhor quer para desenrolar as coisas?
− Preciso do seu dinheiro não. Aqui não cobro não. Eu cobro é na vida. Ocê tá muito mal informado. Tá achando que vai chuchar um cheque e resolvê sua vida? Veio no lugar errado.
− O que o senhor quer para me ajudar?
− Quero que ocê vira um anjo de educação com seus passageiros e com sua patroa. Se em uma semana ocê se comportar direito, eu vejo o que posso fazer procê. Volta daqui uma semana, mas nem pensa em me enganar. A mudança tem que durá.
− O senhor vai ficar me acompanhando?
− Não, não tenho tempo pra isso. Mas tem gente que vai ficar de olho, ah, se vai! Agora vai ali no Congá, pede perdão por cada patada sua e acende uma vela.
Zé Pelintra passava olhando para as pessoas na assistência e dava uma baforada no charuto. Passava perto de alguém, apertava a mão, sondando psiquicamente a pessoa, e ia adiante até que parou perto de um homem com a fisionomia fechada e falou:
− Cara fechada, pra mim, é dor de barriga, homi. Ocê acha que eu tenho medo.
− Não, não – falou o homem secamente.
− Tá com medo, homi?
− Estou sim.
− Benfeito procê. Faz bobagem e não assume. O que ocê quer?
− O senhor acha que fiz bobagem? Por que fala isso?
− Por que eu falo isso? Ha, ha, ha, ha, ha, ha! Tô certo ou num tô? Ocê acha que fez algo errado ou não?
− Acho que não!
− Ah, ocê ainda acha que não. Tem que apanhar mesmo. Vai ficar sem essa perna, seu trouxa!
− Como o senhor sabe disso?
− Eu sou Zé Pelintra, criatura. Num sô os panacas que você quer enganar no mundo, não. Ocê tá pondo a culpa nos outros e ocê também é culpado. Fez coisa errada e não quer pagar. Vai ficar igual ao homi que ocê atropelou.
− Deus me livre! O senhor, ao invés de me ajudar, tá rogando praga. Eu vim aqui para ser ajudado! – Falou com muita raiva.
− Ocê quer ajuda né, pangaré? Mas não quer ajudar. O resultado taí. A família do homi que ocê atropelou quer seu mal.
− Fizeram algo para mim?
− Fizeram sim.
− O senhor pode desfazer?
− De jeito nenhum que entro nisso! Ocê tá pagando o preço justo. Atropela o homi, tava errado, aleija o cara e não quer prestar ajuda: taí o resultado, vai ficar com a perna igual a dele. Não posso entrar nisso não. Sou da justiça, homi. Vem cá, vem aqui mais para perto de mim.
O homem desceu para o centro do terreiro, ultrapassando a pequena mureta que separava a assistência do local. Zé Pelintra pegou com força no joelho direito do homem. Ele urrou de dor.
− Doeu, homi?
− Demais da conta. Está terrível!
− Pois é isso que o cara que ocê atropelou está sentindo. Pimenta nos zóio dos outros é moleza, né? Vai ajudar ele. Paga a cirurgia dele. Ocê tem dinheiro guardado pra que?
− Acho muito injusto...
− Se fosse injusto, Zambi livrava ocê dessa dor. Vai pagar o que deve que sua perna melhora na hora.
Assim que acabou de falar, deu outra gargalhada estridente pedindo àquele homem que pensasse na família do atropelado. Com a força da gargalhada, Zé Pelintra fez um asseio das más energias que os conectavam. Não era solução, mas era alívio. A dor da perna dele aliviou na hora. E para finalizar aquele atendimento, disse:
− Quer resolver isso? Enfia a mão no bolso, socorre o homi que precisa de cirurgia e volta daqui um mês. Vai ali no Congá, acende vela pra Xangô, o justiceiro, e pede clemência.
Enquanto Zé Pelintra rodava o terreiro, os pontos continuavam sendo cantados na tenda. Os demais médiuns, incorporados também, continuavam o atendimento ao público, com uma disciplina invejável. Havia uma doce e encantadora energia de sossego e paz no ambiente.
Zé Pelintra continuou andando e se aproximou de Natasha. Pediu para ela descer até o terreiro. Dona Helena a acompanhou.
− Tem dois capangas de Sete Trevas lá fora. Eu vou mandar eles entrá. Ocê que é médium, muié, – falou com dona Helena – sabe quem eles são, né?
− Sei sim, seu Zé.
− Vou mandar eles vir aqui pra escutar a conversa.
− Acho que vai ser bom mesmo – respondeu dona Helena.
Zé Pelintra afastou-se um pouco do médium, pai Jeremias, e conversou com alguns outros exus no ambiente astral que, a uma ordem sua, buscaram os auxiliares de Sete Trevas, trazendo-os para perto deles a fim de ouvirem a conversa. Virou-se, então, para Natasha e disse:
− Agora vamo falar do que interessa. Ocê, moça, quer que o homi levanta da cama, né?
− Quero sim, senhor.
− Sabe que ele tá pagando por coisa velha? Lá pra trás, ele pegô o dinheiro de comprá os remédios que podiam salvar muitas vidas. Hoje tá pagando com a própria doença.
− O que o senhor pode fazer por mim?
− Limpá ocê de tanta sujeira. Ocê tá precisando de uma saraivada de fundanga. Vamos queimar toda essa ziquizira que ocê arrumô com tanto veneno. Vem cá e me dá sua mão esquerda.
Zé Pelintra começou a rodá-la com a mão para o alto em torno de si mesma e dava baforadas de charuto no corpo de Natasha. Em seguida, levou-a até um canto do terreiro onde o chão era de pedra, fez um círculo de fundanga em torno dela e colocou fogo.
Em seguida, Zé Pelintra aplicou pulsos magnéticos no chacra frontal da jovem. Passado o maior impacto, ela se sentia outra pessoa.
− Tá mió, muié?
− Nossa, estou leve! Sentindo vontade de chorar.
− Pois chora mesmo. Põe pra fora essa peçonha. Se livra disso e segue seu caminho. Os capangas de Sete Trevas vão desfazer a magia que você pediu pra ele, mas ocê cuida bem da criança que vai nascer. É cria dele. Se ocê cuidar bem da criança, vai ter a proteção da falange de Sete Trevas. O menino que vai nascer é fio de pemba e vai trabalhar na Umbanda. Ele tem energia de Oxóssi e vai fazer muita cura nas pessoas.
Natasha estava muito sensibilizada. Mesmo sem entender muita coisa, ela se sentia bem melhor, como nunca esteve. Em seu coração, a gratidão imensa pelo que estava acontecendo ali elevou seu padrão espiritual.
A gira de exu continuava. Foi a vez de Maria Mulambo incorporar em pai Jeremias:
− Boa noite para quem é de boa noite!
Após o cumprimento, deu uma risada estridente e longa, alterando a faixa astral de todo o trabalho. Pegou um lenço grande e dourado – que o médium sempre deixava à sua disposição para os trabalhos –, abriu-o jogando sobre as costas do médium e saiu pelo terreiro.
Os médiuns que não atendiam nenhum consulente naquele momento receberam também outras pombagiras: Sete Saias, Maria Padilha, Rosa da Calunga, Maria Quitéria e várias que chegavam ao terreiro, com suas tradicionais risadas estridentes.
Enquanto caminhava, Maria Mulambo ia saudando todos:
− Sou Maria Mulambo das Almas e vim trabaiá, meus compadres. Toca a curimba que eu vou pra rua.
E os ogans soltaram o som dos atabaques que, freneticamente, elevava a energia em níveis máximos, cantando:
Lá vem ela, oh, caminhando pela rua,
Lá vem a Maria Mulambo,
Não poderíamos, em palavras, definir a amplitude dos benefícios do trabalho daquela noite. O amparo espiritual, o serviço social prestado, o esclarecimento, o socorro e o fortalecimento da fé do povo eram de uma magnitude sem comparações. A luz do bem, o desejo de melhora e o alívio eram nítidos. Quando pai Jeremias cantou para os exus subirem, ficou uma sensação de orfandade no ar misturada com a gratidão dos que estavam ali presentes.